POESIAS DA IDENTIDADE

 

Florentina da S. Souza – UFBA

 

 

As “identidades negras” no Brasil, ou identidades afro-brasileiras, são aqui entendidas, enquanto construções discursivas geradas em distintos universos histórico-culturais e o traçado de tais perfis identitários compreende, nos seus primeiros momentos, um trabalho de busca e leitura do fragmento, dos resquícios de histórias que sobreviveram aos encontros e conflitos e, a partir daí, a produção e reconstrução da história do grupo étnico. O afro-brasileiro é posto, simultaneamente, como participante e estrangeiro nesse instável perfil nacional no qual ele e o índio são constituídos como o Outro, diferencialmente discriminado, sob o argumento de que é apenas um mímico, almost the same, but not quite, para usar a expressão de Bhabha (BHABHA, 1995. p.86)[1].

No entanto, se procuram negar a potencialidade construtiva dos afro-descendentes, se tentam apagar seus traços do desenho nacional, os discursos institucionais incessantemente exploram e utilizam o arquivo cultural afro-brasileiro, em uma relação na qual são negados o poder e a capacidade de gerenciamento político e, concomitantemente, exploradas a produtividade e a criatividade cultural que não impliquem o agenciamento de atitudes direcionadas à disputa do poder.

Para o escritor afro-brasileiro, a reconstrução do discurso identitário terá uma importância e um sentido estratégico especial de garantir a construção de uma personalidade étnico-cultural e a possibilidade de contemplar-se e atuar como parte de um grupo.

Além das negociações culturais interétnicas, as identidades negras no Brasil também intercambiaram com as culturas indígenas e européias, componentes do conjunto cultural brasileiro, de tal modo que, já mesmo no período escravista, a cultura africana no país configurava-se duplamente híbrida e de feição multiforme. Assim, devido aos vários jogos políticos e sociais dos quais participaram as identidades negras, tanto na África como na diáspora, podem ser consideradas:

 

...identidades fraturadas ou descentradas, (...) desde que negro (black) significa uma cadeia de experiências, o ato de representação efetiva-se não sobre o descentramento do sujeito, mas realmente explorando o caleidoscópio de condições de negrura (blackness) (HALL, 1996. p. 91 Grifos da autora).

 

A criação das identidades afro-brasileiras está diretamente articulada à necessidade de transformação, pelas minorias, dos espaços hierárquicos em espaços de atuação produtiva e à necessidade de transformar a identidade intervenção (agency). O escritor Lawrence Grossberg [2], percebendo agency como um conjunto de possibilidades de intervenção nos processos por meios dos quais a realidade vem continuamente sendo transformada e os modos como o poder vem sendo assumido (GROSSBERG apud HALL, 1996. p.97-100) destaca as relações de participação e acesso como possibilidades de movimentar-se em particulares locais de atividade e de poder e deles participar de forma que viabilize assumir seus poderes. Nessa perspectiva é que relaciono agency e identidade, vendo esta última como instrumento de promoção/viabilização de estratégias indicativas dos laços de pertencimento e das possibilidades de influenciar e interferir nos territórios de poder.

Se o discurso é um meio de instauração do poder, como afiramara Foucault[3], a desautorização e a ruptura com certo tipo de discurso promoverão abalo nas estruturas discursivas e nas malhas do poder. As representações discursivas, produzidas e construídas no regime de “verdade”, legitimam a posição hegemônica de um grupo étnico racial. Minar as bases desses discursos, mediante a produção de contradiscursos que apontemseu caráter unilateral e tendencioso, constitui-se em forma de resistência e também de evidenciar o desejo de galgar acesso às instâncias de poder. Os grupos minoritários vão, assim, operar uma reversão[4] nos discursos instituídos: explicitam os seus mecanismos de funcionamento, apontam seus interesses e objetivos, expõem as suas hierarquias e valores, como estratégia de contestá-los e disputar com eles o poder de persuasão. Enunciador consciente de sua formação cultural e de sua dupla posição social, double voiced[5]: quetransita entre as culturas de origem africana aprendidas de modo assistemático e a cultura obtida através dos universos institucionais, o escritor afro-brasileiro constata que seu perfil está ou ausente ou esmaecido no desenho dos componentes da família nacional e, como grupo minoritário na economia das relações de poder, sente-se simultaneamente incluído e excluído no discurso da cultura ocidental.

Não será a cor da pele ou a origem étnica o elemento definidor dessa produção textual, mas sim o compromisso de criar um discurso que manifeste as marcas das experiências históricas e cotidianas, vividas e imaginadas pelos afro-descendentes no País. O conjunto de textos circula, não sem dificuldades, pela história do Brasil, pela tradição popular de origem africana, faz incursões no iorubá e na linguagem dos rituais religiosos, legitimando tradições, histórias e modos de dizer, em geral ignorados pela tradição instituída.

Na vida dos povos africanos em diáspora no Brasil, as linhas do relacionamento identitário eram retraçadas, na Bahia e em outros espaços, pelos fios e fios de miçangas enrolados nos corpos. Os africanos usavam colares feitos de búzios (rosário de ifá) e de contas coloridas como forma de apontar pertencimentos e devoções religiosas; entretanto, o sistema ‘educativo colonial’, desde logo, procurou “ensinar” aos africanos que as contas faziam parte da devoção católica, tentando outra reconfiguração do seu sentido.

A cultura religiosa católica tecerá laços cristãos para os negros por meio da criação de igrejas e irmandades ‘dos pretos’, entre elas destacando-se a de Nossa Senhora dos Rosários dos Pretos. Seria ela diferente das outras Nossas Senhoras? Menos exigente na defesa dos seus fiéis e protegidos? Menos sensível aos sofrimentos e agruras da vida de um escravo?

O rosário cristão, introduzido na cultura dos afro-descendentes, é pretexto para que a poetisa Conceição Evaristo deslize, suba e desça, desfie as suas contas, brinque com as possibilidades de significados da expressão ‘contas/contar’ e ofereça, conta a conta, verso a verso, uma descrição de ‘um rosário dos pretos’ – constituído de contas negras e mágicas fala de percursos, histórias, identidades, alegrias e frustrações que são também meus e de outros afro-brasileiros.

 

Do meu rosário eu ouço os longínquos batuques do meu

povo e encontro na memória mal-adormecida as rezas dos

meses de maio de minha infância. As coroações da Senhora,

onde as meninas negras, apesar do desejo de coroar a Rainha, tinham de se contentar em ficar ao pé do altar lançando flores. (CN,15, p. 23)

 

As miçangas ou contas, conhecidas e utilizadas pelos povos africanos como marcas externas de preservação de seus vínculos identitários e das afiliações míticas, serão ‘aproveitadas’ pelo padre Vieira para delinear um discurso construtor de outra marca identitária. As contas brancas opacas de Oxalá, as vermelhas de Xangô, as brancas transparentes de Yemanjá, as azul-claras de Oxóssi, fragmentos da religião dos Orixás, trazida juntamente com os africanos e recriada no Brasil, compunham a indumentária das negras como se fossem apenas meros adereços. Interessado num processo pedagógico com base nas comparações e identificações, o padre Vieira procurou atribuir ao uso dos adereços um sentido católico, ensinado no seu sermão XXVII da série Maria Rosa Mística:

 

As voltas de contas que trazeis nos pulsos e ao pescoço (fallo com as pretas) sejam todas das contas do Rosário. As do pescoço cahidas sobre os peitos, serão a marca do peito: ( ...) e as dos pulsos como bracelletes, serão a marca do braço (...) e uma e outra marca, assim no coração como nas obras, serão um testemnuho e desengano publico para todos, de que já estão livres vossas almas do captiveiro do demonio e do peccado, para nunca mais o servir. (VIEIRA, 1951. Sermão XXVII, v. 12, p. 356).

 

Para o jesuíta, uma vez instaurado o processo de ressignificação, as contas (símbolos dos pertencimentos étnicos, passam a símbolos da ‘libertação do paganismo’, do pecado e do demônio), tornam-se marcos de ruptura com as tradições de origem africanas de adoção do catolicismo; no entanto, “obedecendo” à orientação dos jesuítas, as pretas continuaram utilizando as contas dos Orixás (em geral sob as roupas), juntamente com as do rosário católico, prestando, às vezes, culto às divindades das duas tradições religiosas. Um procedimento idêntico à síntese do panteão dos Orixás e à reconfiguração do espaço sagrado do terreiro africano, efetivados com o objetivo de reinstalar e preservar, de acordo com as limitações da situação, seus marcos da memória cultural na diáspora.

Pressionados pelos colonizadores, cientes das dificuldades do enfrentamento direto, os africanos no Brasil procederam uma reelaboração de seus cultos e produziram um jogo de contatos com vista à preservação de um patrimônio comum na origem embora diversificado na especificidade do ritual (SODRE, 1988b. p.57). O jogo negociado em que ambas as partes, mesmo que uma seja majoritária, farão concessões e adequações é muito bem figurado pelo poema “Meu rosário”. Analisado como parte do processo de adaptação à nova realidade, esse jogo faz parte de um mecanismo de aproveitamento das brechas do sistema, a fim de manter os cultos e outras tradições. Como pontua Hall, a hegemonia cultural não fixa papéis definidos de hegemônico e subordinado, mas consiste num equilíbrio instável de estruturas e configurações de poder sempre ajustáveis (HALL. In: MORLEY e CHEN (Eds.)1996. p.468). As proibições dos cultos, vigentes até o século XX, por exemplo, motivaram várias tentativas de soluções negociadas, buscadas na “proteção’ de elementos dos grupos prestigiados ou ainda mediante o pagamento de taxas de licença de funcionamento e mesmo da supressão de determinados elementos do ritual, de modo que o templo de culto, o terreiro, e os bens simbólicos pudessem reinstalar a atmosfera mítica da cosmovisão étnica. As contas desse ‘rosário dos pretos’ quebram a tradicionalidade do rosário católico composto apenas de padres-nossos e ave-marias; nele, cant[a-se] Mamãe Oxum e fal[am-se] padres-nossos, ave-marias. As contas mágicas do rosário misto permitirão a circulação de energias diversas pelo corpo dos fiéis, possibilitarão um longo percurso passado a dentro, ativando memórias e lembranças distantes e recentes. Desde os longínquos batuques festivos e sacros que se estendiam pela madrugada, nos quais os Orixás fazem do corpo dos fiéis seu ‘cavalo’, instrumento, para aconselhar, contar histórias, desvendar intrincados segredos; atéas especificidades das discriminações raciais à brasileira, que restringem e hierarquizam as possibilidades de intervenção e participação ativa dos afro-descendentes na vida do país, escondendo-os sempre nos lugares desprestigiados das fotografias nacionais: “[as] coroações da Senhora, onde as meninas negras, apesar do desejo de coroar a Rainha, tinham de se contentar em ficar ao pé do altar lançando flores”.

Verso a verso, o poema “Meu rosário”, explorando as possibilidades de sentido da palavra ‘conta/contar’, descreve débitos, créditos, responsabilidades, marcas, apreços e sofrimentos, rosário negro que, toque a toque, constrói um perfil híbrido, afro-brasileiro, e, por outro lado, ‘dá conta’ das nossas histórias passadas e presentes, nem sempre vividas de modo tão amistoso e harmônico:

 

Meu rosário é feito de contas negras e mágicas.

Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum

E falo padre-nossos, ave-marias.

Do meu rosário eu ouço os longínquos batuques do

meu povo e encontro na memória mal-adormecida

as rezas dos meses de maio de minha infância. As coroações da Senhora, onde as meninas negras, apesar do desejo de coroar a Rainha tinham de se contentar em ficar ao pé do altar lançando flores.

As contas do meu rosário fizeram calos nas minhas mãos,

pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas, nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo.

As contas do meu rosário são contas vivas.

(Alguém disse um dia que a vida é uma oração,eu diria porém que há vidas-blasfemas.)

Nas contas de meu rosário eu teço entumecidos sonhos de esperanças.

Nas contas de meu rosário eu vejo rostos escondidos por visíveis e invisíveis grades

e embalo a dor da luta perdida nas contas do meu rosário.

Nas contas de meu rosário eu canto, eu grito, eu calo.

Do meu rosário eu sinto o borbulhar da fome no estômago, no coração e nas cabeças vazias.

Quando debulho as contas de meu rosário,

eu falo de mim mesma um outro nome.

E sonho nas contas de meu rosário lugares, pessoas, vidas que pouco a pouco descubro reais.

Vou e volto por entre as contas de meu rosário,

que são pedras marcando-me o corpo-caminho.

E neste andar de contas-pedras, o meu rosário se transmuda em tinta, me guia o dedo, me insinua a poesia.

E depois de macerar conta por conto o meu rosário, me acho aqui eu mesma e descubro que ainda me chamo Maria.

(CN15, p.23-24)

 

Rosário negro/reisado nagô, como descreve outra poetisa, Miriam Alves, mantendo o mesmo tom no poema“Passo, Praça”. O periódico literário Cadernos Negros, no qual estão publicados os contos e poemas aqui referidos, narram, letra a letra (em diferentes caligrafias), conta a conta (de formatos e em disposições variadas), as histórias de lutas, rostos fictícios e reais, mas também reivindicam, cobram as contas pelos trabalhos impostos. Transitam entre sonhos, desejos, esperanças, denúncia, não deixam, entretanto, de vivamente caminhar para contar as contas-pedras, as pesadas e elevadas contas difíceis de serem quitadas, “fizeram calos nas minhas mãos, pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas, nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo”.

Calos que se formaram nas mãos, nos pés, na mente, no olho e no peito daqueles que, devido a uma série de fatores, rezam o rosário de outro modo. Contas que, uma vez maceradas, extraído seu sumo e despida a casca superficial, desvelam outras histórias, em que sujeito e objeto se confundem para apresentar um outro lado da parcialidade.

O rosário composto de rezas católicas e cantos dos Orixás do poema “Meu rosário” é posto lado a lado com o “Rosário rezado/Reisado nagô” de Miriam Alves para que os dois poemas falem das histórias contadas em jeje, longas histórias jamais esquecidas por gerações que carregam, no peito e nas costas sensíveis e resistentes, séculos de tentativas de expressão, de gritos silenciados e de pequenas vitórias que, algumas vezes, mudaram os rumos dos ventos.

Histórias e estórias que falam do Brasil, narradas em uma língua portuguesa larga e intensamente influenciada pelas línguas africanas que, por força do contato e da resistência, moldaram o português do Brasil, trazendo a musicalidade de suas línguas tonais (CASTRO, 1991), emprestando palavras que, de tanto tempo incorporadas à língua portuguesa do Brasil, já nos soam ‘portuguesas’ ou brasileiras[6].

Porém, se rezar o rosário indica crença e dedicação religiosa, às vezes não tão espontânea, não é a prática católica que determina o rezar de rosários e terços como forma de o fiel purgar os pecados cometidos e confessados? O ato de rezar o rosário é também um castigo, uma fatura a ser paga pelo transgressor pecador. Esse pesado rosário-punição e devoção, de santos e orixás é apresentado por Conceição Evaristo e Miriam Alves como motivação para cantos e contos.

Os três terços que compõem o outro rosário, o dos pretos, contam, pois, histórias – de navios, de viagens, de outros mares, humilhações, violência e exclusão; histórias de fugas, lutas, matas, quilombos e resistência; histórias de outros contadores, agora sujeitos e objetos da narrativa, interessados em compor outras versões, narrar outras viagens e trânsitos pela geografia e pela cultura, elaborar outras identidades e discursos, nos quais são cobradas e prestadas contas, narrados contos e ensinadas lições. Conta a conta, também eu circulo pelos textos-rosários que repetem rezas, gritos e reivindicações, histórias, subindo e descendo, macerando presente e passado, retiro e acrescento contas nas quais os fragmentos da vida vão sendo desfolhados e dão corpo a vozes que escavam, às vezes sem querer, também a mim e às minhas histórias: pedra a pedra, conta a conta, conta por conto[s].

Contos contados com motivações estéticas e utilitárias – pedagógicas: propositalmente, eles pintam rápidos painéis, nos quais narrador e provável leitor identificam-se pela origem étnica e também pela similaridade dos problemas vivenciados em decorrência dessa origem. A experiência vivenciada pelo narrador, enquanto mais velho ou mais ‘vivido’, ou mais atento, será compartilhada com o leitor, recuperando, de certa forma o valor da experiência e a utilidade da narrativa[7] – o que não implicará no mero restabelecimento da narrativa tradicional.

Contar para unir os traços e organizar sua própria história de vida, catar e colar os fragmentos da memória para compor um desenho, nada inocente, que ressalta ou esquece tudo que interessa ou não ao perfil, à memória que se deseja fixar. O ato de esquecer aqui considerado elemento produtivo e indispensável para o traçado desse perfil, atinge, deliberadamente ou não, determinadas partes da história (que são esquecidas ou deixadas de lado). Esquecer e lembrar, ações diversas que, em conjunto, possibilitam dar feição de quadro não lacunar à história construída, permitem estabelecer conexões, eleger precursores e construir uma tradição afro-brasileira. ocial.

Os povos na diáspora, diferentemente do que pensaram as elites colonizadoras, não são tábula rasa, mas inscrevem a si e às suas culturas no corpo da tradição que lhe é imposta. Os arranhões e cortes, consciente e inconscientemente realizados pela cultura minoritária, deixam marcas indeléveis e incontestes, inventando, na diáspora do Brasil, o reisado nagô. Rosário rezado/reisado que narra uma história de sofrimento e de insubmissão, mas também de alegrias e realizações, “apesar da cruz (cristã) pesar”.

 

Paissandu a Praça

Passo no Paissandu

a Praça

há Pedra

Rosário negro a desfiar...

há estória

 

Paissandu a Praça

Passo

Ouço

Rosário rezado

Reisado

negro a desfiar...

há estória em gêge

praça pedra a pedra

conta

a

conta

 

Conta

das costas que não se curvaram

conta

ah!

Conta

apesar da cruz (crista cristã) pesar

apesar

conta

rosário rezado

Reisado nagô

conta a conta

conta. (CN17,p.40-41)

 

O peso da cruz cristã pode sugerir à leitura pelo menos três qualidades de fardo: primeiramente, o peso do trabalho forçado, imposto aos nossos ancestrais sob o sistema escravocrata; em segundo lugar, remete para o conjunto de castigos impingidos como meio de forçar a desumanização e coisificação do escravo; em terceiro, o peso da imposição de uma língua, uma cultura, uma forma de vida e de uma religião fundamentadas em bases alheias e totalmente desconhecidas, mas que precisavam ser o mais rapidamente ‘aprendidas’ para garantir a sobrevivência.

O africano e seus descendentes aprendem, transformam, utilizam, torcem, distorcem, remodelando a tradição imposta e recusando curvar-se plenamente, camuflam a insubmissão e impõem sua feição e marcas ao discurso imposto, fraturam-no tornando visível a atuação da alteridade – rosário rezado/reisado nagô. Uma prática lida aqui como desestabilizadora da autoridade do discurso hegemônico. ( BHABAHA, Op. Cit. p.130-135)

O peso da escravidão modifica-se, atualiza-se no século XX, e muitos discursos expõem o modo como os afro-brasileiros têm tentado combater a exclusão; mas, como lembram os versos de Miriam Alves, muitas costas não se curvaram e seus descendentes empreendem hoje uma luta pela emancipação, herdeiros que são de vozes revoltosas e rebeldes, mas também vozes alegres empenhadas na transmissão de conhecimentos e tradições.

Choro, submissão, revolta contida, palavras poéticas, atuação, as vozes-mulheres, diversas, fragmentadas, espalham-se pelos Cadernos Negros persistentemente – Conceição Evaristo, Miriam Alves, Esmeralda Ribeiro, Sônia Fátima, entre outras –, múltiplas, dissonantes e melodiosas vozes, semelhantes e diferentes, frágeis, tímidas e resistentes, atentas, sensíveis e cheias de esperança “ao escrever a fome, a dor, a vida” “a ilusão-esperança/ da dupla sonância nossa”.

Conta a conta, constituindo rosários diversos, algumas descrevem-se em ânsias de mudanças, transformações de lugares e modos sociais – uma vontade de poder mudar, de construir-se outra. Os textos desse importante periódico de literatura afro-brasileira organizam um coral de vozes jamais totalmente silenciadas, que se mostram e fazem história, uma história também minha, a provar que o rosário de contas-pedras, usadas como adereços (pedras de colar), contas pedras pesadas, difíceis de serem conferidas ou postas à vista, também se transmuda[m] em tinta,[...} guia[m] o dedo,[...] insinua[m] a poesia. A poesia afro-brasileira, construída que é nas encruzilhadas de um repertório cultural diversificado, viajando por entre os vários espaços da diáspora, intercambiando com a cultura africana, continua a transitar, às vezes mais à vontade, noutras de modo meio ‘envergonhado’, constrangida, ainda, devido aos anos de aprendizados ocidentais, entre territórios sagrados de Mamãe Oxum, Oxossi e Ave-Marias.



[1] Quase o mesmo, mas não exatamente

[2] No ensaio “Identity and Cultural Studies: Is that all there is?”In: HALL & GAY, 1996.

[3] A Ordem do discurso.

[4] O sentido de ‘reversão’ é aqui utilizado a partir das reflexões propostas por Deleuze no ensaio “Platão e o simulacro” (DELEUZE, 1974. p.259-271).

[5] Utilizo a expressão no sentido que lhe empresta Gates ao caracterizar a produção literária negra da diáspora e sua ambivalência expressa no fato de estar simultaneamente ligada à tradição ocidental e às tradições de origem africana levadas e adaptadas na diáspora.(GATES, 1988).

[6] De acordo com Yeda Castro, palavras como mocotó, samba, marimbondo, cochilo, dengo, caçula, já assimiladas pela língua portuguesa, são palavras originárias das línguas africanas e constituem marcos explícitos do processo de africanização pelo qual passou o português no Brasil.

[7] Refiro-me aqui aos traços da narrativa tradicional levantados por Benjamin no seu famoso texto “O narrador, observações sobre a obra de Nikolai Leskov”.(Cf. BENJAMIN, et al. 1983. p.57-74).